4 POEMAS | AGE DE CARVALHO

Age de Carvalho

fotografia de Peter Provaznik


MA BOHÈME

Do olho-músculo
amatório, daqui
falas, daqui
chamas —

ao vagido da boceta, bocaberta
ar-, arfante ante a tv vulgar,
desces,
ao sangue sem sacrifício,
à jugular ardente da pantera num táxi
desces,
à jungle brilhante das boates,
às florestas de ácido e acrílico
desces,
.             desces
ao dragão de veias entupidas
no toalete, à girl de gengiva vermelha,
à gente fedendo a dinheiro
no saguão flutuante de negócios,
à boca de fumo e riso, às coxas
que no agora infræterno te entretêm,
ao ladrilho fosfóreo onde rolam glóbulos
brancos e verdes
à poça verde
sorriso verde
(EXIT no luminoso verde,
que lês:
Au Cabaret-Vert!)
e além

desces

e desces ainda
até àquela palavra afta
(em Desires) fotografada por Nabuyoshi Araki

e tornas

ao olho, músculo amatório,
.                                                 de onde falas,
.                                                 de onde chamas.


LÁBIA

Às 6 e meia
viemos ao mundo,
livros sobre o radiador
desligado,
flores e álcool,
a cama desfeita —

como chegamos até aqui?

Minha lábia,
minha lésbia
amadora-amorosa,
vam’embora na canção
que diz: vivamos

Deitados sobre a relva
do quarto,
ouvíamos pela janela
o rouxinol nenhum
a nos-ninguém chamar
às primeiras luzes:

éramos invisíveis,
lá fora carros lutas reses
sacrificadas na bruma
e
voltamos a dormir.


EM TI,
em pé, atrás

do alecrim e do oleandro
sufocando o terraço supraceleste,
sócios em ócio
e sexo
a saudar céu abaixo:

tu, terna, tenra,
e eu, donde
desembesta essa tara
pedestre, terrena,
para-sempre-
em-ti
plantado.


EU, INTIMO-ME
a reconhecer-

(em ti, contigo
em viagem — nós,
dois faróis na estrada
farejando a escuridão luxuosa,
abolido tempœspaço
à visão da grande nebulosa:
tu, era eu-todo-estrelado,
o céu, espelho)

-me em
mim-mesmo.


Age de Carvalho, Belém do Pará, Brasil, 1958.

PUBLICAÇÕES (todos títulos de poesia): Arquitetura dos ossos (1980), A fala entre parêntesis (em parceria com Max Martins, 1982), Arena, areia (1986), Ror: 1980–1990, (poesia reunida, incluindo o então inédito Pedra-um, 1990), Caveira 41, (2003), Trans (2011), Ainda: em viagem, (2015), Age de Carvalho: todavida, todavia (organização do autor e Mayara Ribeiro Guimarães, 2018), entre outros.

Em 2006 é publicada a sua antologia Sangue-Gesang na Alemanha, traduzida por Curt Meyer-Clason.
Organiza desde 2015 a reedição da poesia completa de Max Martins, em 11 volumes (dez deles já publicados, ed.ufpa).

Os poemas aqui publicados foram retirados dos livros Caveira 41, Trans e Ainda: em viagem.

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