A DUREZA E A PUREZA DO SER | LÍLIAN ALMEIDA

Desalento

Meus olhos esperançaram aurora,
mas o dia foi chumbo.
A chuva teimou em não deitar sobre a terra
e lavar tudo.
Há estilhaços cardíacos no meu apartamento
e manchas vermelhas nas paredes.

Por falta de chuva,
derramo lágrimas como um rio
para lavar a barbárie em que se ergue a nação.
Pudesse eu limpar tudo, faria
ainda que secasse inteira
vertendo-me líquida.

Inútil desejo.
Penar é só um passo na história da des-humanidade.

Não há chuva, nem auroras
nem violetas no horizonte.
Por não ter o que me salve, choro.
Quem sabe, ao menos lavo a dor da impotência
a dor dos meus passados e futuros
dos meus ancestrais e descendentes
que adere à minha pele preta.

Há abismos na minha garganta muda
cheia de líquido.
Não vomito uma palavra sequer.
Falta-me tudo,
até vísceras.
Sobra-me água, lágrima.
Vai ver é para diluir o sal
que salga a terra em que habito.
Vai ver é para lavar todo sal
que corta a minha carne.
Vai ver é para afogar a mim mesma
e levar comigo todo ardor do mundo.

***

Purificação

Quién es aquella desconocida que la suplanta.
Ketty Blanco

Enfrento meus demônios
quando escrevo.
Estraçalho-me.

Nos olhos de quem sou,
torpeza e vilania.
No oco de minha humana idade
salsugem, sargaço.
Salgo as minhas carnes abertas.

Cada palavra
um golpe
uma queda
uma força.
Me esgoto no último ponto.

Purgar-me é viver tudo por inteiro.

Sigo
mesma e outra mulher
mãos dadas ao pior de mim.

****

[Sem título]

há caos ante meus olhos.
a parvoíce em fúria descarrilha a nação.
despedaça, carcome, dizima
o que não é espelho.

olho as flores nos vasos
o chão onde cultivo quem sou.

quando foi que plantamos a semente nefasta
que frutifica agora?

um caminho, talvez
cortar tudo, limpar, revolver o solo.
retirar das verdades os vícios.
aprender com a terra a regeneração.

deixar que ela se faça original
e cada fruto
a magnitude da criação.


Baiana de Salvador, Lílian Almeida é Professora Adjunta na Universidade do Estado da Bahia e doutora em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Integra os portais e plataformas literários: Oxe: portal da literatura baiana contemporânea, Mulheres escritoras negras da Bahia, Mapa da palavra. Tem publicações em sites, blogs, revistas literárias tais como Subversa, Raimundo, Diversos Afins, Ser MulherArte, Liberoamérica. Participa de Além dos quartos: coletânea erótica negra Louva Deusas, CartoGRAFIAS (Funceb), Profundanças 2: antologia literária e fotográfica, Corpo que queima: uma antologia de poetas baianas, Tabuleiro de poesia e da antologia Orillas de América Literária: poesia brasileira contemporánea. Tem participado de Encontros e Festivais internacionais de poesia na Colômbia e no México. Publicou Todas as cartas de amor (prosa) em 2014, pela Editora Quarteto e Pulsares (Prêmio Edital Caramurê de Literatura – 2019), pela Editora Caramurê.

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