DEI O QUE TINHA | LUBI PRATES

lubi prates

Dei o que tinha

1.

te dou de comer
na palma da minha mão.

é ancestral
o gesto de agachar,
se reconhece:

me curvo ao chão
então, você vem,
faminto.

não distingue
entre o que é comida
e quem eu sou.

penso domar a fera,
as pontas dos meus dedos se vão.

não distingo
se é dor ou prazer
me transformar em seu alimento.

voltarei amanhã,
você sabe.

2.

sequer havia luz,
mesmo assim,
aprendi a te alimentar
primeiro.

antes de qualquer verbo
ou nome:

não havia chamado,
ainda não há.

embora sequer houvesse luz
e tendo, ainda, olhos
preservados por você,
me guiei pelo cheiro da sua boca
entreaberta.

agachado,
com minha pata de bode,
te dou de comer
antes de seguir, veloz.

3.

esse chão
criamos nós

a partir do nada que havia:

era apenas linguagem.

na palma da sua mão
dei o que eu tinha,
cuspi a palavra terra
que você moldou com sua saliva.

fez-se lama.

nomeamos assim,
essa porção ínfima
onde deitamos.

4.

quando forte,
você se antecipa.

reproduz meus gestos
com uma velocidade maior.

trama uma fuga.

quando você passa,
eu lanço a pólvora.

o fim te alcança
ainda preso a mim.

aqui, agora,

explosão
diante dos nossos olhos.

5.

sobre a lama onde deitamos,
passou tempo.

confundimos
passado presente futuro:

aparentam ser o mesmo.

na lama onde deitamos,
criaram-se frestas,

nelas, imaginamos caminhos.

surgiram tantos outros iguais a nós.

abri uma encruzilhada
e te coloquei no meio.

de costas, esperei que seguisse.

6.

conforme você se afasta
um novo dicionário
adentra a boca.

eu não me viro:
enxergo o futuro
às minhas costas.

de cada verbete engolido
você cospe a própria matéria.

com os seus passos,
vi surgir o vazio.

7.

não calculei a medida
do quanto permanecer imóvel.

olhos fechados
mãos fechadas
segurando tudo que não existia

enquanto eu me escapava.

este estalo inaugurou algo novo:
essa dissolução.

me tornei poeira,
depois de você.


Lubi Prates (1986, São Paulo, Brasil) é poeta, editora e tradutora. Além de “um corpo negro”, que foi contemplado com uma bolsa de criação e publicação de poesia do PROAC (Programa de Ação Cultural, do estado de São Paulo), publicou outros dois livros “coração na boca” (2012) e “triz” (2016). Seus poemas também integram diversas antologias nacionais e internacionais. É sócia fundadora e editora da “nosotros, editorial”, organiza antologias e festivais literários e ministra oficinas de escrita poética. Dedica-se, principalmente, à ações que combatem a invisibilidade de negros e mulheres.

Lubi Prates (1986, São Paulo, Brasil) es poeta, editora y traductora. Además de “un cuerpo negro”, que recibió la beca de creación y publicación de poesía del PROAC (Programa de Ação Cultural), ha publicado otros dos libros, “coração na boca” (2012) y “triz” (2016). Sus poemas también han integrado diversas antologías nacionales e internacionales. Es socia fundadora y editora de “nosotros, editorial”, organiza antologías y festivales literarios y enseña cursos de escritura poética. Se dedica, principalmente, a acciones para combatir la invisibilidad de negros y mujeres.

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