DIAS DE HOJE | ARMANDO FREITAS FILHO

Armando Freitas Filho

foto de Cristina Barros Barreto


NOITE DE QUARENTENA

Negra montanha
não cede à lua
nem às estrelas.
Noturno impassível
sem céu nenhum
e sim o rochedo
subindo não sei
até onde o seu cume.
Quando chegaremos
a altura segura
que acende a lua
e o punhado de estrelas?


ÁREA DE RISCO

A seta da caneta
mais rabisca
do que escreve.
Crava letra por letra
em linhas pontudas
e o que parecia ser
um verso é reverso
fere por amor e medo
e tudo em fim acaba
ou enfim… com reticências.


DÚVIDA, MUTAÇÃO E AVENTURA

Caldo de morcegos devia ser uma delícia.
Não apenas o caldo, mas a carne fina
das asas noturnas e silenciosas.
Uma penca deles assim em voo rasante
ou apenas um ou outro, numa mudança transtornada
espalhando no céu do universo a morte volta e meia
que nem o Batman consegue vencê-los
na história em quadrinhos, quando forem
muito tempo depois, desenhados?


SE…
Preto, Branco, Pardo
são seres e não cores
tampouco são raças.
Se mil Mandelas
existissem e Deuses
de toda espécie tivessem
diferenças amigáveis
e mulheres e homens iguais
no trabalho da vida
o Mundo, a Terra
giraria leve, livre
sem nenhuma Guerra ou entrave
a não ser pelo acaso da Natureza.


Armando Freitas Filho nasceu no Rio de Janeiro em 1940. Publicou 17 livros de poesia, sendo o primeiro Palavra, em 1963, e o mais recente Rol, pela Companhia das Letras, em 2016. Vai ser lançado Arremate, pela mesma editora, neste ano de 2020. Foi premiado com o Jabuti, o Prêmio Alceu Amoroso Lima – Poesia e Liberdade e o Troféu APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte, entre outros.


 

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