ENTRE O TÉDIO E A LÂMINA | MICHELE SANTOS


OSSOS

a distância enche a imaginação de alegorias das
alegrias antigas que colecionamos
quando é noite os silêncios se avolumam e
as suposições convertem em bichos as sombras

não me desculpe as loucuras os desacertos as vertigens

a vida é toda sobre ir e se
o caminho tem caso com a desavença a
poesia fica sendo o sapato de amansar o
calo da existência. felicidade devia ser
perto. mas –
é certo que a gente
[será só eu?
guarda esse talento crônico pra lonjura

não me culpe as escusas os sumiços

a morte dos poemas

a vida é o que dá pra fazer

nos enquantos em que ela se desfaz
amansar desrazões pelos princípios

da publicidade:
o máximo de nossos marketings

[filtro artificial –
os ossos expostos
a custo alcançar o que diz que há
na simetria das geografias invasoras

– a “beleza”
quantas? quais?

[o outro é sempre longe.

acaso não soubéssemos,
só os ossos são capazes de nos pôr em parecença

a única que nos une:
a estética do óbito

abaixo da terra ri o cálcio roído,
farelo das utopias de igualdade.

 

 

DÍVIDA

sabe o quê?

devíamos mesmo
era levantar cedo recolher os copos
estancar os trancos remendar as trincas

praticar a yoga comer dos orgânicos

postar bons augúrios matinais

enquanto fingimos –

que é isso

não estamos sendo engolidos, beibe

e viver assim zen
e saber viver sem

açúcar ansiolíticos ressacas brigas lactose

nicotina boletos de consumo holerites tevê

sódio ódio rebites arroubos dramas fobias

seriados em pacote golpes

pânicos –

insumos do cão. por que a gente vende a alma

pra justiçar a terra que pisa?
o ar – é de graça, ainda?

[essa querência pra pássaro é que me anda aziando.

sabe o quê?

devíamos mesmo

MESMO

era juntar a gente tudo
dinamitar a porra toda

do lado de lá.

 

 

DESCABIMENTO

Meu amor tem o peso de uma pena
pousada sobre os destroços
do terceiro reich
Meu amor é trópico
utópico típico
empunhador de bandeiras punhos e
coisas vermelhas
[sangues rosas iras izquierdas – e.g.
Meu amor é pátria pária
país desfronteiriço –
uma ilha no pacífico
[deslugar dos malpropícios
Meu amor tem cara de cavalo bravo
e relincha summertime num parque
Meu amor tem febre de louco na fila do psicotrópico
(meu amor é a paz do Iraque)
Meu amor tem cinco mil amigos na timeline
e compartilha os domingos com a melancolia
Meu amor abraça o mundo como a um filho
que se tem
– ido.
Meu amor tem mais ruído
que o silêncio de uma solidão no pólo ártico
Meu amor estreita o espaço
entre o tédio e a lâmina
Meu amor tece foguetes para os sonhonautas da linha esmeralda
Meu amor é dado a mesmos, esmos, esmolas
Meu amor desenha cantilenas pra mortalha dos pássaros
Meu amor opiáceo mói os ossos dos sóis de março
Meu amor cabe todo em tudo que destamanha

Meu amor não serviu em você

 


Michele Santos é de São Paulo-capital-BR, poeta, escritora, professora de escola pública; ativista cultural, coorganiza o Sarau Sobrenome Liberdade e a Fligraja (Festa Literária do Grajaú) na Zona Sul periférica de São Paulo. Publicou Toda via, em fins de 2015, Deve ser isso (artesanal) em 2017, e Las Dos (artesanal, bilíngue PT-ESP), este último em dupla autoria com a poeta Janaína Moitinho, todas edições independentes. Tem textos publicados em várias antologias, revistas e zines. 

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