FADO INTERMINADO | GUILHERME GONTIJO FLORES

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Toda mãe tem as duas mãos quebradas,
e são para quem nunca as concedeu.
Como se fosse inconcebível fado
o nome carregado, o nume dado
da vila inacabada. Quem te deu
que vai ruindo todo nas quebradas
um erro infando, as contas de um abrigo
perto, teus descontentos descontando?
Conta nos anos tua perda estando
dia. Te deu a casa em desabrigo,
o tempo dava o som do nunca sido:
cordas umbilicais, teu nome quando,
pra comungar, as coisas desvalando,
dia te deu um sono desabrido.

Dia te deu um sono desabrido
pra comungar as coisas desvalando
cordas umbilicais: teu nome quando
o tempo dava o som do nunca sido.
Dia te deu: a casa em desabrigo
conta nos anos tua perda estando
perto, teus descontentos descontando
um erro infando, as contas de um abrigo
que vai ruindo todo nas quebradas
da vila inacabada. Quem te deu
o nome carregado, o nume dado
como se fosse inconcebível fado
e são, para quem nunca concedeu?
Toda mãe tem as duas mãos quebradas.

a partir de Ana Chiara

Eu cadela de beco sem saída
conclamo um uivo mouco:
é pouco quanto peço

e se tropeço um tanto
é quanto meço na partida
as pulgas que carrego.

Afinal nasce um bocejo cego
e nego a raiva prometida
na lida de uma saraivada

dos nadas consumidos a esmo:
a mesma mola chocha do desejo,
o mesmo brejo da saída,

o beco seco da goela
nessa viela escancarando
o quando mesmo deste tédio.

Cadela sem saída:
o beco é meio termo andado
e meia vida é meia boca

(pergunto o nome das ossadas
mas cada uma me responde
um nome interminado) —

no estrado onde me assento
invento a vida inteira
na corredeira da sarjeta.

A meta está fadada sempre
ao entreato desta lida:
a saída de um beco sem cadela.

Os edifícios estalando
como a terrena pedra
de espera da noite,
onde nos entrelaçaremos;

luz torneada no tempo
em cuja brecha
a carne medra
no amor supremo:

estamos revolutos,
feito sargaço
na areia estreita, feito
extremo corte

(onde?),

os dedos estirando
céu adentro, céu
abaixo, céu imenso
sob um som cinzento,
tenso de sílica
e concreto.
Amor supremo
onde estaria, se o ar
exala a peste, o ser
consome o custo
extremo destas tumbas?

Carícia, gesto
interminado,
ainda onde intento
o modo aberto,
atento a tudo que de vivo
se dê pétala no sagrado.


Guilherme Gontijo Flores (Brasília, 1984) é poeta, tradutor e professor de latim na UFPR. É autor da tetralogia poética Todos os nomes que talvez tivéssemos (2020), carvão : : capim  (2017, em Portugal, 2018 no Brasil) e do poema-labirinto avessa: áporo-antígona, além do romance História de Joia (2019), entre outros. Como tradutor, publicou A anatomia da melancolia, de Robert Burton (2011-2013, 4 vols.), Elegias de Sexto Propércio (2014), Safo: fragmentos completos (2017), Epigramas de Calímaco (2019) e Arte poética de Horácioi (2020), dentre outros. Coescreveu o livro ensaístico Algo infiel: corpo performance tradução junto com Rodrigo Gonçalves e fotos de Rafael Dabul, e é autor do ensaio A mulher ventriloquada: o limite da linguagem em Arquíloco. Coeditor da revista escamandro (www.escamandro.wordpress.com) e membro do grupo de performance e tradução Peroca Loca.

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