FEZ AMOR COM O SOL | VANESSA ALVES


FEZ AMOR COM O SOL 

 

Hoje B. se deitou ao sol
Mas não lhe bastava estar vestida com um biquíni mínimo
Queria estar nua
E não queria provocar ninguém
A não ser ela mesma – sem saber
Tirou os óculos escuros pra ver a luminosidade real das coisas
Pequenas e grandes
Encostou o bico dos seios contra a canga dourada
Alguns segundos e
desconfio que Klimt enxergaria uma espécie de Danae pós-moderna pandêmica
Enfiada no metro quadrado da sua própria casa
Obrigada a conviver com a solitude
E com o terror e o milagre
De encontrar orgasmos que nascem às três da tarde
Apenas por causa dos bicos de seus seios

E
Que antes
Estavam guardados
Debaixo das blusas
E do ar condicionado
Da firma apressada de desejos outros
Que infelizmente trabalhava
– Adiando a sua existência –

E, se em todos os lugares das coisas que B. enxerga lhe trazem tristezas e miudezas banais
Encharcadas de planilhas e desaforos urgentes
Que a doença do mundo, ao menos, lhe traga o pertencimento último
De sentir sua pele devastada pela beleza do sol de abril

Sem ter que encarar a cara infeliz e multiplicadamente virulenta
Que é a vida em seu estado normal e demasiado patética
Para ela
Que reconhece o poder e a desgraça de ter uma boceta latejante – que não pode latejar

– Amarrada pelo tempo de terno e gravata

Que nada sabe de Vênus e seus montes
Que nada quer saber das bifurcações e dos atalhos perdidos contidos em incalculáveis horas extras

Para ela deixar de ser
– ela –

Terminou de tocar aquela música
Deu pra ouvir
Um pássaro voou rápido – deixando rastros no céu

B. não pensou
Não tinha condições de.

Baixou as mãos, enfiou os dedos no buraco quente entre as pernas
Pra dentro e pra fora, encontrou seu ritmo
Estava fértil e deslizante
Fez amor com o sol
Nunca soube
já era outra.


Para você, T.M
Fui embora. Cambaleando desde os cílios naufragados pelo mar de Copacabana – aos pés espremidos naquele sapato que você dizia sexy. Fui embora com três caixas de ansiolíticos na bolsa, 100 dólares amassados, uma moeda russa que achei na rua e o resto do teu Camel.
Deixei, amassado, na lixeira do teu subsolo mal iluminado, um bilhetinho escrito no guardanapo: amo você, fofinho. Mas você não sabe lidar com tigres que usam scarpins vermelhos e pintam a boca de rouge.
Nunca mais me meti em subsolos tingidos de ressentimentos felinos.

(Peguei meu coração e comi, Patuá, 2019)


 

CELEBRAÇÃO DA NUDEZ 

A nudez me transpõe da condição humana e me leva ao sagrado. A nudez perpetua minha existência. A nudez me provoca, desassossega, instiga os olhos dos grandes Outros (vestidos ou não). A nudez me liberta, e, como um diamante, vejo duplicada a minha imagem em mil faces, em mil personas. A nudez me sacode e me enfia em estado meditativo. Antepassados perpassam por mim e evocam canções sob a minha pele de mundo, carregada de história e Brasil.

Príncipes do Congo, índios, portugueses, escravos, guerras, história, sim, história. Meu corpo carrega uma colônia inteira de exploração. Partes da minha parte me convidam para dançar – nua – e eu danço. Meu corpo me seduz e por ele eu escrevo, por ele eu sou.

Ele me move e me cura, me desalinha, me desespera, acelera, descompassa, retorna e descansa. E eu celebro a nudez exata de mim mesma, não a nudez pequena e capital, a nudez lucro, a nudez que ignora o desenho das minhas veias de América latina, mas a nudez que é, antes, Poema

(Peguei meu coração e comi, Patuá, 2019)


PARA A PRIMEIRA FODA ESTRANGEIRA

Tua cara nunca me importou. Acho que foi a primeira vez que eu transei mais com um país do que uma pessoa

Roubei teu corpo-linguagem para emigrar sem documento para o teu continente.
Estrangeira de mim mesma
Uma criminosa orgástica
Sem fronteiras

(Peguei meu coração e comi, Patuá 2019)


PODE VIR, H
Passei a tarde inteira escrevendo versos ruins e tomando café
Desencontrei a alma do verso, emudeci.
Tudo
Para lhe dizer que o que a carne quer não tem nome,
É desejo lúbrico que escorre e cresce em glória por entre minhas coxas grossas.
Enquanto imagino você: tesudo-fálico-antropofágico, em torpor na janela,
fumando um cigarro
e disparando
para cima de mim
(lânguida, nua e deslizante)
Mísseis de uma guerra de prazer
onde a vida, ao invés de se perder, perpetua.

(Peguei meu coração e comi, Patuá 2019)


Eu te corto de mim
Desde aquele último afogamento de whisky
Num bar chuvoso em Copacabana
Quando você acenou um tremendo adeus de silêncio
Eu te corto de mim
Vou me cortando
Assim
Cada dia menos você e eu
Cada dia mais pele
Sendo reestruturada e nascida novamente
Em cada mini geografia do meu corpo
Tudo pra saber que esse pedaço de carne viva que acontece agora
Está cicatrizada à léguas de distância dos seus acontecimentos em mim

(Peguei meu coração e comi, Patuá 2019)


999
– Essa coisa de mostrar o seu “empoderamento” feminino ainda vai te levar longe, ouvi enquanto olhava a cara enfadonha da menina de saião rodado na minha frente, bebendo um copo de cerveja barata, enquanto eu, a puta da história empoderada, sem emprego, estava esperando minha dose de gin e retocando o 999, Christian Dior, nos lábios.
– Você não bebe cerveja? Ela perguntou.
– Não. Me empapuça, é como gente chata.
– E esse batom?
– Quer passar? Tem a história da cor…… ela me interrompeu: que babaquice.
– Cada um se pinta com a babaquice que pode. Ou não se pinta, não é assim que funciona? 999 é uma história. Mas foda-se, não é pra você.
– Ela fez cara de nada e não tava entendendo porque eu tinha dinheiro pra beber o bar inteiro e não precisaria estar de pé e infeliz às 6 da manhã no dia seguinte.
Agora, sobre essa coisa empoderada, eu disse, é isso aqui, ó: ela tá logo aqui embaixo. Fiz sinal com o canudo de plástico pronto para matar os peixinhos que já estavam nadando na minha boceta molhada.
E a menina que cheirava mal e era bem bonita, me olhava com ar de desdém, muda.
Eu tava num caso seríssimo de
tesão com o cara que tocava no bar como quem trepava com a música. Era meu David Bowie, meu Beatle.
Quando ela soltou: mas por que você tá molhada?
É por causa dele. Eu disse. Ele “empoderou”, a minha boceta com esse jeito
De “sei lá o que”
Meio torto, meio
“Jim
Morrison” e agora tem um
Oceano fértil de bichos dentro de mim. É vermelho 999, a cor da vida.
Ela terminou a cerveja barata, bateu o
copo na mesa e saiu de perto de mim.
Eu chupei todo o gin, pedi mais e fiquei assistindo ele, imaginando paus de todos os tamanhos no meu ídolo lindo, ali no palco meio limpo,
Meio imundo.
A menina foi ler poemas sobre “empoderamento”
Bocetal.
Lá fora.
Ela
Foi
ficcionar a sua boceta.
Eu continuei ali dentro, rasgada e assando a minha carne com aquela merda de tanqueray.
Doía um pouquinho, mas era bom.
O prazer custa uns bocados. Mas é real.

Mini-bio

Vanessa Alves é escritora, poeta e atriz. É autora, desde 2017, do projeto erótico Sem Tarja, onde disponibiliza fotos, vídeos e contos eróticos pelo instagram @vanessaferalves_. Lançou em 2019 o seu primeiro livro de prosas poéticas, Peguei meu coração e comi, pela editora Patuá.  Atualmente trabalha no seu segundo livro de contos e crônicas eróticas.


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