O MÚSCULO DA ESCOLHA | INES CAMPOS

InesCampos

tradução: Agustin Arosteguy


CORCOVAS

fiquei no trem que não passou
no verbo que escapou pela pele

o céu reduziu os espaços e arreganhei
os dentes atrás da burca

engoli a chave que carregava no pescoço
nenhum pensamento depois do seu sopro

montei o bicho no silêncio das corcovas
a maldição do muro saltado

onde foi que não mastigamos o sal?
em que língua choravam seu nome empedrado?

 

JOROBAS

quedé en el tren que no pasó
en el verbo que escapó por la piel

el cielo redujo los espacios y enseñé
los dientes atrás del burka

tragué la llave que cargaba en el pescuezo
ningún pensamiento después de su soplo

monté el bicho en el silencio de las jorobas
la maldición de ratearse

¿dónde fue que no masticamos la sal?
¿en qué lengua lloraban su nombre empedrado?


S/TÍTULO

o canto enlouqueceu os quadris

ele se derramou para o húmus
fugindo do calcanhar paterno
sem memória do tempo peneirado
enquanto a mãe servia o caldo dos dias

como sentar ao lado do seu som marinho
e comer sopa com garfos?

S/TÍTULO

el canto enloqueció los cuadriles

él se derramó para el humus
huyendo del talón paterno
sin memoria del tiempo tamizado
mientras la madre servía el caldo de los días

¿cómo sentarse al lado de su sonido marino
y comer sopa con tenedores?


ESCOLHA

com a cabeça e o desejo no meu colo
entregou-me o buquê e os espinhos da escolha

eu, depois, no cais
não me virei
ele, depois, contou até cem
à espera dos meus olhos ―

jogou cara e coroa e guardou sua vida

ELECCIÓN

con la cabeza y el deseo en mi falda
me entregó el buqué y las espinas de la elección

yo, después, en el muelle
no me volteé
él, después, contó hasta cien
a la espera de mis ojos ―

tiró cara y cruz y guardó su vida


S/TÍTULO

começo esta carta no leito
do rio retornado
depois do desaparecimento do mundo
com nosso filho nos braços
e seu hálito
recolhido
nas linhas da mão

escrevo no couro do tempo vivido
no rio de agora quase um não rio
deixo suas línguas lavarem a dor
escorrida pelos dedos
enquanto a criança bebe do leite
que um dia fomos

 

S/TÍTULO

comienzo esta carta en el lecho
del río retornado
después de la desaparición del mundo
con nuestro hijo en los brazos
y su aliento
recogido
en las líneas de la mano

escribo en el cuero del tiempo vivido
en el río de ahora casi un no río
dejo que sus lenguas laven el dolor
escurrido por los dedos
mientras el niño bebe de la leche
que un día fuimos


O CHAMADO DA MAÇÃ

como não olhar para trás e
resistir ao chamado da maçã?

como não colocar uma cadeira perto do armário
e um banco em cima da cadeira
ao alcance do segredo?

como não buscar
o fundo, a seiva
dos brincos de princesa
e as circunferências perfeitas da noite?

 

EL LLAMADO DE LA MANZANA

¿cómo no mirar para atrás y
resistir al llamado de la manzana?

¿cómo no colocar una silla cerca del armario
y un banco encima de la silla
al alcance del secreto?

¿cómo no buscar
el fondo, la savia
de los aros de princesa
y las circunferencias perfectas de la noche?


O MÚSCULO DA ESCOLHA

então é a escolha que você propõe
o músculo que conduz
um homem seu bicho
não há rastro em suas costas
nem vestígios nas dunas abertas
permanecer é um modo de ir
você dirá

a escolha e suas dobras
escutar os grãos
o caminho que ele canta
o ermo e a noite povoada
a panturrilha esboça o passo

não sei o que lhe soprou o vento
cinzel do corpo
finco os pés na dúvida
não há no imenso
as regras do livro crepuscular


O INSTANTE

o meu barro não cede
ando com ele nas ruas
estreitas autoestradas
no cascalho da máquina
antes do torno
há que esvaziar as bolhas
sovar o atrito
recolher o que não é
sem chão – alguém dirá
falta a raiz o tronco
mas veja, seguro algo de livre
entre os dedos
queria te perguntar
e nesse instante já teria uma jarra
uma frase completa
uma gaveta ou seu molde


IKEBANA

ela atravessa a noite para recolher em sua bilha
a primeira água
preparar a toda idade da planta

eu com as mãos em fragmentos de linguagem
pronuncio a primeira sílaba
acordo os pássaros
a segunda uiva na noite absoluta
a terceira são as crianças que não nasceram
a última já não digo
por não suportar
o próximo bicho

 


Inês Campos nasceu em Belo Horizonte, onde vive ainda hoje. É poeta e advogada. Em 2017, lançou o livro Geografia Particular, pela Cas’a edições. Seu segundo livro, Roca, foi lançado pela mesma editora em 07/12/2019. Alguns de seus poemas foram publicados também em revistas e coletâneas nacionais, além de terem sido traduzidos para o catalão.

Inês Campos nació en Belo Horizonte, donde vive hasta hoy. Es poeta y abogada. En 2017, lanzó el libro Geografia Particular, con la editorial Cas’a. Su segundo libro, Roca, fue lanzado en 2019 con la misma editorial. Algunos de sus poemas fueron publicados también en revistas y colecciones nacionales.

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