POEMAS NA HORA CERTA | ANTONIO CICERO

A hora certa

Certas coisas acabam na hora certa:
mas essas são tão raras;
pois quase todas as coisas se enterram
bem antes de acabadas,
esboços de si mesmas, ou então
depois da própria morte,
em estado de decomposição:
por exemplo, os amores,
os ideais, a juventude, as vidas
dos animais, dos seres
humanos e dos deuses, as cantadas,
os poemas… Mas viva o que consiga
inopinadamente
chegar ao próprio termo na hora exata.

 

Poema inedito

 

 

Nihil

nada sustenta no nada esta terra
nada este ser que sou eu
nada a beleza que o dia descerra
nada a que a noite acendeu
nada esse sol que ilumina enquanto erra
pelas estradas do breu
nada o poema que breve se encerra
e que do nada nasceu

 

 — In: Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012

 

 

Sair

Largar o cobertor, a cama, o
medo, o terço, o quarto, largar
toda simbologia e religião; largar o
espírito, largar a alma, abrir a
porta principal e sair. Esta é
a única vida e contém inimaginável
beleza e dor. Já o sol,
as cores da terra e o
ar azul – o céu do dia –
mergulharam até a próxima aurora; a
noite está radiante e Deus não
existe nem faz falta. Tudo é
gratuito: as luzes cinéticas das avenidas,
o vulto ao vento das palmeiras
e a ânsia insaciável do jasmim;
e, sobre todas as coisas, o
eterno silêncio dos espaços infinitos que
nada dizem, nada querem dizer e
nada jamais precisaram ou precisarão esclarecer.

 

— In: A cidade e os livros. Rio de Janeiro: Record, 2002.

 


Antonio Cicero é autor, entre outras coisas, dos livros de poemas Guardar (1996), contemplado com o “Prêmio Nestlé de Literatura”, A cidade e os livros (2002), Livro de sombras: pintura, cinema e poesia (poema em livro de imagens do pintor Luciano Figueiredo (2010) e Porventura (2012), que recebeu o “Prêmio ABL de Poesia”, e foi finalista do “Prêmio Jabuti de Poesia” e do “Prêmio Telecom de Literatura”; e é também autor dos livros de ensaios filosóficos O mundo desde o fim (1995), Finalidades sem fim (2005), finalista do Prêmio Jabuti, e Poesia e filosofia (2012). Além disso, ele organizou o livro de ensaios Forma e sentido contemporâneo: poesia (2012) e, em parceria com o Waly Salomão, o volume de ensaios O relativismo enquanto visão do mundo (1994). Em parceria com Eucanaã Ferraz, organizou a Nova antologia poética de Vinícius de Morais (2003). É também autor de inúmeras letras de canções, tendo como parceiros compositores como Marina Lima, Adriana Calcanhotto e João Bosco, entre outros. Em 2012, ele foi agraciado com o “Prêmio Alceu Amoroso Lima – Poesia e Liberdade”. 

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