DEPOIS NADA | RAQUEL NOBRE GUERRA



“Podia começar por aqui

agradecer aos destroços, abrir lume
destinar-lhe estas últimas sete
palavras

ser convicto enfim mesmo sem saber como”.

R.N.G

 

O FIM DO MUNDO COMEÇA SEMPRE NO CAFÉ DO BAIRRO

o vietnamita eleva uma maçã acima da cabeça
como se me atravessasse nesse seu gesto corso
gente que está viva, diria, pasto para as
sensações e isto não quer dizer nada senão que
sigo a forma dos objectos mortos para que as
coisas passem que me esforço por um certo
sossego.

Ainda sou essa criança predadora
que empurra a noite para o lado com os
dentes acordo no lado mais duro da terra
faço contas ao corpo antes de ser bicho

penso
esta obsessão não é
verdade estou morta sou
infinita

e a manhã despenca como uma

grua agora vou ao café todos os

dias
para que o mundo que me percorre
entre pela ordem exacta dos punhos

respiro com as raparigas da cidade
digo, como é quente e pesado este fato preto
que vai doendo menos abrir os olhos debaixo de
água que se canta melhor na Praça das Flores
de frente como estás para mim

que eu só queria existir um
pouco na definitiva passagem do
fogo
e suster a passo veloz os estragos
a força de um corpo resumido ao vento

agora escrevo diários íntimos
para cumprir o instinto
canalha
de quem rouba para ser apanhado
de quem mata pela beleza de um
corpo por onde se enfiou um dos
braços
até não saber a que altura se pôs a noite

depois nada, a minha vida é só a minha vida
um olhar bovino treinado para devolver ao
mundo o mínimo insulto sem me mexer um
milímetro

e eu já não sei a que altura se pôs a
noite nem da fraqueza do sol que cai
de borco

(o café ilumina-se de todos os anjos filhos da puta)

daqui a pouco sairei de casa
estou certa que daqui sairá o poema mais triste.


APRENDI A TRANQUILIDADE DE PASSAR SOBRE OS DIAS

com o domínio de um coração baixo
de me perturbar menos a posição
astrológica de certas palavras no coração
do verso

houve vezes em que me embaracei na musa
e tanto quis largar-me à doçura desse
humor que me cheguei de cara toda à
carcaça julgando que o bife na mesa fosse
meu

mas a natureza morta da
metáfora não me deu talho para
o poema

sei que qualquer aragem me atravessará o corpo
e que a mentira da manhã vai folgando entre
nós como um sol mobilizado para a morte

sei porque me chego para a frente com
força que o poeta transporta um saco
de luz
com um coração doente que canta

mas não há verdade nesse coração
que não termine com duas senhoras de negro

que não me falhe a pontaria na hora de
traçar uma obra futura para nutrimento do
espírito
— essa besta furiosa que nunca chega a ser livre
por muito que fulja e se agite no homem
com mais homens dentro. Que isso seja
mais que cair na tentação de durar por
escrito

(minto, porque cedo ao poder das
palavras o que trago no saco são coisas
remendadas que vou deixando cair)

se ao menos tivesse dois ou três dentes de
ouro(1) e na lei que me confere vencida a
ética fizesse, como tu, felizes tantas bocas
mas

aprofundei-me na ocupação da violência
um arzinho de filosofia para empernar meninos
um pai matemático e obsessivo como um poço
sombrio um príncipe melancólico com abalos
de amor
por mulheres mais tristes que uma mulher a
correr urgências psiquiátricas para arranjar
namoradinho
reconheço, no meio disto, a cantiga do

bandido. Se ao menos aprendesse a bravura
dos recrutas:
Vá — pago um copo / a quem disser que me ama!(2)

Mas não, garanto e mal este pouco verso
para que o leitor avance dobrado sob
mim.

Corrijam-me se estiver
errada mas a razão comovida
de tudo

(1) Herberto Helder
(2) José Miguel Silva


GOSTO DE ACHAR QUE SEMPRE FUI UMA BOA SOLITÁRIA

quando morrer colocada sob a luz mais
favorável dirão que me movi com a ira de um
rei trocista

farão romarias ao Senhor Roubado para
esmolar o pouco que não tenha sido apontado

amigos que enterraram corpos amigos
um só amor capaz de morrer de tão
antigo um burro tombado de vícios e
vaidades

os meus duzentos e seis ossos farão a desculpa
para doutoramentos sobre o Estádio, esse
tabique, que impedia o Letes de engolir o rasto
dos dias

ao fim ao cabo não terá corrido mal
a tão alardeada beleza já nos estava

prometida sabes, tenho pouco para dizer

afinal

apreciar sobretudo não ter para onde
ir fazer do amor o passageiro frequente
cobrir cada vez mais a cabeça
de camélias.

Merecerá mais a literatura que a minha vida?

Fiz a tropa toda no grande bluff da noite
literária contribuí para a mania da minha
geração
sofro o meu próprio termo de orfandade e aceito
que a medida daquilo a que chamam realidade
seja um aparador de bibelôts com as pernas
bambas que sem querer um animal faz desandar.

Já pouco escrevo que convenha à javardice
diária escrevo a bebedeira das palavras
escolhidas porque nunca ninguém escreveu
para se elevar
escreve-se para dar forma ao medo e abrandar-lhe o peso.

Acreditem sou supersticiosa penhorem-me a vida
tenho uma perninha no bem outra no mal e mijo no
meio é honesto pensar assim.

Quando me levarem levem-me inteira mas
antes deixem-me surfar a ressaca da última
onda.


SORRIO AOS MORTOS E ENTERRO OS VIVOS

como        um      objecto
escuro
por que rodaram mãos e jeitos de
luz

vivo como se não estivesse
aqui roupa leve como na vida
e vou da primeira à última batida
na
respiração de um pulmão

doído lê assim

podia arder a uma pouca distância de
ti nessa praceta que é um poema teu
e as coisas voltariam a mim, meras,
como o ser transportada pelos dias
mas cairei por aqui

meu
amor

porta no trinco e nada nas
mãos há muito que é tudo o
que resta.

 


Raquel Nobre Guerra (Lisboa), licenciada e mestre em Filosofia, frequentou o doutoramento na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com uma bolsa de investigação da FCT. Não concluiu a tese. Publicou Groto Sato (Mariposa Azual, 2012), distinguido com os prémios Pen Club Português e Prémios Novos – Culturgest / CGD; SMS de Amor e Ódio (Residências no Largo, 2013); Saudação a Álvaro de Campos (Palavras por Dentro, 2014); Senhor Roubado (Douda Correria, 2016), com edição também na Selo Demônio Negro, São Paulo, 2017 e Hochroth, Berlim, 2019. Em 2017 foi-lhe atribuída uma bolsa de criação literária pela DGLAB. Em 2019, sob coordenação e tradução de Jerónimo Pizarro, publica a antologia bilingue Una Coca-Cola Contigo (Puro Pássaro, Bogotá). Prepara o próximo livro.

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