RENDER | LU MENEZES

Lu Menezes

FONTES DE RENDA

Era uma vez uma cidadezinha medieval
predestinada por poderosa tempestade
que fez do seu rio um canal
de navegação natural
ao longo de séculos de prosperidade.
Um dia, empobrecida
pelo lodo que de novo o obstruiu,
a Bruges restava ainda
a renda como fonte de renda.

-x-

Renda que vem de “reddere”,
re-dar, dar de novo, devolver.

-x-

Renda e bordado: ao tempo
tangivelmente tecido
fraternais filiados.
Quatro horas de trabalho
rendem um mínimo centímetro de renda
que assim aufere valor agregado
como acontece ao bordado
— mais rentável se manual —
e não à poesia, essa impalpável.


RENDER

“Toda substância suscetível de dar
um fio pode dar
um tecido”, no Lello Universal e no quintal
de mulher braçal que sempre
rentavelmente tece o que lhe acontece.

Leite tem lá
todos os faturáveis futuros;
porco, além de fadado a banha e torresmo,
a transcendência do sabão alcançará.

Ela soma —
a cada sombra de mangueira
tina de tambor de gasolina
e neta lavadeira esfarrapada a quem rediz
que remendado seu pano durará um ano
e reremendado,
um mês.

Com tal talento, algum antípoda
(crente em ganhos da mente)
a seu talante faria
assim render
o próprio ser?

Talvez,
unless o desalentasse,
na natureza dessa empresa,
o estado de sítio vital —
o interior feito tear
onde tempo-feitor fazendário
seu tecido de menos-valia urdiria.


FARO PARA DIAMANTES

Nas terras ricas em diamantes,
confundindo-os com grandes grãos
de açúcar

as formigas

levam-nos para o fundo da colônia
e após
vãs tentativas de dissolvê-los com suas enzimas,
lá os abandonam, assim provando
dupla falta de faro, pois
depois que desistem de tornar
comida os diamantes, nem em sonho
vislumbram convertê-los
em micrometeoritos ao redor dos quais
confabulassem
(como os hominídeos de “2001”)
reconhecendo em tais entes
resplandecentes
parentes do Formidável
ou as iscas faiscantes de algum
Esplendor Predador

— Mas
com mil cigarras!, que direito te arrogas
cobrando de formigas surgirem contemplativas
se em nossa própria Terra
menos e menos sabemos o que fazer
da beleza indigerível, do limite diamantino
que manhãs & amanhecer às nossas enzimas ensinam.


Lu Menezes, é poeta e pesquisadora. Publicou O amor é tão esguio (Ed.independente, 1980); Abre-te, rosebud (Sette Letras, 1996); Onde o céu descasca (7 Letras, 2011); Gabinete de Curiosidades, em parceria com Augusto Massi (Luna Parque, 2016), e Querida holandesa de Vermeer (Luna Parque, 2020), além do ensaio Francisco Alvim por Lu Menezes (Eduerj, coleção Ciranda da Poesia, 2013). Vive no Rio.

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