SAUDADE É UM BARCO À DERIVA NA TEMPESTADE | NATÁLIA AGRA

NataliaAgra

saudade
saudade é
saudade é um
saudade é um barco
saudade é um barco à
saudade é um barco à deriva
saudade é um barco à deriva na
saudade é um barco à deriva na tempestade

saudade é um barco à deriva na tempestade
saudade é um barco à deriva na

saudade    é    um    barco    à    deriva
saudade    é    um    barco    à
saudade    é    um    barco
saudade    é    um
saudade    é
saudade


QUARTO VAZIO

um quarto do quarto está vazio
nem lembrança, nem pavio
amadeirado mandarim insone
a cama, só um lençol branco muito envelhecido

já se passaram seis anos
num abraço dolorido contra o travesseiro
gavetas e armários abertos
passa um vento entre os cabides
a camisa de botão desabotoada
marca no peito o vazio

no vai e vem de um quarto ao outro
faço minha mudança
você não mais ali, meu amigo

releio os teus bilhetes datilografados
o teu poema em mim
ressoa o teu pigarro de cigarro e café
eu volto e balanço o lençol
deito e deixo as botas penduradas na cabeceira
ainda escuto tua respiração
ainda friso teu riso,
ainda me apavoro


STORYTELLING

para o Fabiano

no retrato, um olhar
ainda âncora
abriria
em outra imagem
um sorriso?

(eu e você deveríamos mesmo nos encontrar)

estou a um passo do rio distante
o corpo pétala
sensível a agonia
no ópio íntimo
nasce uma pérola

(você e eu deveríamos mesmo nos encontrar)

como se o sol encurtasse
a distância entre dois ventos
você me leva a mão ao peito,

vivemos agora na mesma fotografia


ALMOST BLUE

Para o Roberto

divido com ele o café melancólico
polly jean diria que ele está exposto como uma estrada aberta
leva o mundo com o voo no peito
……………………….respira fundo todo o espetáculo do silêncio

quando tratamos da vida moderna
chegamos à conclusão de que o futuro
este fracasso de gerações
……………………….não merece mais o nosso cuidado
mas concordamos que os jovens são tão bonitos
em sua harmonia alienada em volta da piscina
juntos, evitamos decifrar os suicidas
……………………….e deixamos o livro sempre aberto no precipício

ele também fechou os olhos do seu pai
e observa gringos cabeludos e sorridentes no
trapézio da tragédia
……………………….cantando zombie

se eu pudesse descrevê-lo em uma imagem
o desenharia à mesa, às 8h da manhã
enquanto todos embaixo de 32 andares
correm atrasados
……………………….ele está sentado, com seu suéter de outono
ouvindo o barulho que só o café faz na xícara
como poemas que se evaporam antes de chegar ao último verso,
……………………….ele está ali, a sós, fumando em paz o seu cigarro


FOGO-FÁTUO

Nada mais vai me ferir

velei teu corpo por tanto tempo que ainda bate em mim o pó secreto alheio àquela
noite. por doze horas resistimos à ideia de que você não mais estaria ali. e esse pó
que se reverte em torpor me faz, de novo, chorar com toda a clareza que só a porta
da separação nos inflama – as lágrimas descem como vitrais, como colmeias, como
elefantes. ergo os olhos para você na parede, sem que teu retrato exista, de fato. o
que existe é a memória de algo desbotando, que escorre feito pigmento que contorna
algum rosto que mora sempre no que nos ancora. ontem tentava tocar tua voz e fui
mais longe, tentei tocar também a voz de minha avó e de meu avô (que morreram
tanto tempo antes). não consegui. de meu vô, guardo o fanho da língua – silencioso,
guardava, no sereno, a densa e forte fumaça do cigarro de palha (difícil verter
qualquer palavra para além do necessário – meu avô, um deserto). de minha vó,
quase toda a gargalhada, o passeio pelas flores que ela, em sobejo, cuidava – quase
tanto ela mesma uma rosa (era fácil – minha avó, um jardim). pensei em minha mãe
e em meu pai, que nunca ouviram de minha irmã a palavra mãe ou pai. pensei o quão
cruel foi não poder ouvir o que esperaram por muito tempo e imagino como foi ainda
mais difícil ouvir de mim, que, por ironia, guardei e falei suas primeiras palavras.
pouco, muito pouco esbarrei na voz que estampava no retrato, uma vida inteira
malograda. estou perdendo tua voz. a voz exata, intacta. a voz que, momentos antes
da tua morte, já parecia tão diferente da que eu conhecia. às vezes, ela reaparece por
um milésimo de segundo em minha mente, para depois ocultar-se novamente. tenho
um filme teu, no qual tua voz está lá – estala, expressiva, melancólica, cansada de
perseguir os mesmos planos. estala. está lá, mas sou eu que não consigo atravessar a
finíssima película da voz que já não existe. deixo-a por lá, perdida nas nuvens do
computador, em sua finitude maquinal. a ideia do esquecimento apavora. diante
disso tentamos nos proteger de alguma forma nas reminiscências, mesmo que o toque
esteja a quilômetros do corpo, o hipocampo espalha suas longas notas que ficam
planando, registrando cada instante. o hipocampo e sua orquestra afinadíssima. cada
nota uma lembrança esboçando o espaço numa música antiga. estamos todos
inexistindo nesta fábula inquietante pelo deserto. reviver traz de volta a imutável
condição de ser fonte e ser ferida. é preciso rememorar o segundo final na tentativa de
abraçar o que está submerso. dedico várias horas dos dias no diálogo áfono com cada
um dos meus mortos. fantasmas presos eternamente no assoalho da memória. se
pudesse, engoliria a voz que entra pela porta sem nenhum contraste. o espaço e o
tempo presentes no canto da gaivota perdida. para sempre. um rio em suas ruínas, a
gaivota – um pequenino ser com a sua morte dentro. sou eu, também, pequena morrendo
a cada passo? percebo, agora, que, durante aquelas dozes horas em que observara teu
último pesadelo, naquele labirinto insuperável, onde, se observasse bem, dava para
vê-lo correndo, em busca da saída mais próxima, através do ouvido acerado que
escutava de mim o desespero: não consigo segurar minhas lágrimas do mesmo jeito que
você. e você já ouvia o pássaro que ninguém mais ouvia. o pássaro indiferente a todos
os outros – antípoda aos pássaros da minha infância, que você tão pacientemente
aguardava os primeiros sons deslizando por tantas horas incompreendidas. ouvimos
tantas vezes o mesmo pássaro, não é, pai? e teve que ser eu a fechar a última porta
entre nós. parece certo dizer, por repetidas vezes, que há em toda morte um pouco
da nossa própria morte. um duplo terrível. um espelho fantasmal. e real. a gente
contempla, na figura do outro (estática), o início do nosso fim. hoje, passados tantos
anos, aquelas horas derradeiras e por horas infinitas, em que guardei do teu rosto as
últimas folhas, reflito sobre o rio que agora nos distancia: somos meu pai e eu: um
rio imenso, que nos atravessa.


AUGÚRIOS

Para W. B. Yeats

o mundo não está mais em bom estado
cada um enterra o que é seu
cada morte escolhida
oculta o restante

nem as prateadas maçãs da lua
ou as douradas maçãs do sol
sobrevivem ao mistério inquietante

o mistério no pouso do corvo
a floresta desesperada de sangue
a flauta, onde, na densa fumaça,
flutuam seus ossos

no acaso longo da vida
nada pode impedir
o perigo do agora
mesmo que tudo,
de algum modo,
tenha um espectro trágico

calo os tempos difíceis
com a mesma nuvem
que resiste à violência


MESTEÑOS

para o Lobo

Pela grande campina deserta passam os cavalos a galope.
Aonde vão eles?
Murilo Mendes

mesteños
: palavra mistério
já estive nesta mesma trilha
……………os cavalos e eu na mesma
trilha indomada

mesteños
: retirantes exilados selvagens
pelo caminho
cruzamos o deserto,
vertemos o mar,
……………o passeio
do universo
passa por nós

……………estremece

na ponta da garupa
no aperto do garrote

é preciso parar                              ouço
na vida sou passageiro
sou bagageiro
das               saudades                de                  lá

mesteños
: palavra castanhola
olhal e sombreros
debaixo do sol
nos seixos de sal

mesteños
: quando dizemos mãe
também dizemos mar
quando rezamos o mar
das               saudades                de                  lá
é que a mãe nos abraça
passa por nós
a cantiga da cavalaria
de São Jorge
em romaria

mesteños
: mustangues nascidos no mangue
seguindo em frente
queimando                       las pestañas
(en esta absurda             (no túmulo
carrera de caballos)       de meu pai)

mesteños
: corcéis de batalha
ustengos sem pátria
mátria no brasão do peito
galope
um campo arrasado
o mundo inteiro

mistério algum


UMA CANECA DE CAFÉ NUM DIA PARA SE GUARDAR NA MEMÓRIA

para o Leo Marona

faltavam 15 minutos para o meio-dia
aprecio a cena
talvez um pai e seu filho no colo
o filho aponta para tudo que vê
o pai parece responder
continuam andando
uma folha despenca do 11° andar
um dia você vai cair e chorar
então vai entender tudo
todas as coisas
o pai continua descrevendo para o filho o que ele aponta
o filho enxerga árvores, o pai as sombras
um pouco à frente deles, num cortiço
uma mãe lava roupas no tanque
seus filhos tomam banho de mangueira
naquele instante de improviso
o caos relativo
congelado pelo sal do meio-dia
a chuva no arco-íris
a felicidade contemplada na crise
o pai senta e passa algo em sua cabeça
passa a mão na cabeça do filho
aprecio a cena
sei o que o pai vê:
o futuro de seu filho
uma folha caindo
no sol do meio-dia


NATÁLIA AGRA é poeta e editora. Nasceu em Maceió (AL) e vive em São Paulo. Publicou os livros de poesia De repente a chuva (Corsário-Satã, 2017) e Noite de São João (Corsário-Satã, 2020), publicado também em Portugal pela editora Douda Correria. Publicou o livro infantil Os balões de Nise (IOGRAM, 2019). É uma das editoras da revista Despacho e uma das organizadoras da Desvairada – Feira de Poesia de São Paulo.

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