SEGREDOS | TATIANA CRUZ

Cronologia do limbo: Dia 1

Rotas de navegação
as tenho
Menos o mar
Não sei mais o caminho para o mar
Me enterro
Sei dos meus pés
os limpo
os lavo
o cheiro da terra não sai
Tenho me tornado bicho?
Uma árvore?
Alguma erva daninha?
Que dano eu posso causar?
Marcas marinhas
as tenho
Do meu tempo peixe
faço fácil chorar
Umedeço
E a terra toda parece gostar
e floresço
Deve ser algum plano
verdejar
esse canto escuro
molhar
esse planalto seco
enraizar
esse solo
raso
Mas rotas de navegação
as tenho
E tudo tem um tempo
Para quem é como eu
Do mar
Faço fácil chorar
Faço fácil molhar
Faço fácil escapar
Também tenho os meus segredos

Crustáceos

a tarde é um útero quente
de dentro do vidro da casa
de dentro da última casca
ainda queimo
encharcada

a tarde é um coração viscoso
forjado de camada sobre camada
engomado, molhado,
coberto de vapor d’água

a tarde é um signo mutável
um buraco
ou um esconderijo
um feto
um gemido
uma chaleira
que chia
uma enchente
em copo d’água

a tarde é casulo
domicílio de bicho
em condição de salto

a tarde é um guardado
um segredo
um baú de fotografia antiga
um café recém-passado
o silêncio
aguado
liquefeito
um defeito
destilado

a tarde
é um nome do meio
um parente morto
o próximo bebê
o espelho pra dentro
a tarde é o casamento
do que foi e do que devia ter sido feito

a tarde, hoje,
é um elemento
líquido em situação
de transbordamento
um lamento que voa
em um aposento
apertado
a tarde é esse imenso
silêncio
que fala

The Healer

Na gaveta dos venenos
Mexo cada vez menos
Eu já mastiguei
Vidros
Segredos
Já quebrei
Dedos
Já carreguei
Promessas demais
Me diz
Onde se chega
Quando se quer mais.
Me diz
Como não olhar
Mais
Pra trás.
Estive em pedra
Desenhada
Em terra
Fui nada
Um cais
Um bicho que não mexe
Um corpo que enfraquece
Coisa que não se oferece
Hoje eu tenho pressa
Na gaveta dos venenos
Mexo cada vez menos
Tenho testado outros
Experimentos
Na gaveta,
Os venenos
Ganham tempo
Na gaveta
Os remédios
Os venenos
Na gaveta
Os remédios
Na gaveta
Dos remédios
Mexo
Cada vez
Mais


Tatiana Cruz é poeta e artista visual autodidata. Seu primeiro livro, “Na minha casa há um leão” sai no primeiro semestre de 2021 pela Editora Zouk reunindo poemas e colagens. É jornalista e especialista em Literatura Brasileira pelo Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, fundadora do mapa global de poesia falada feita por mulher no Instagram, @1MinuteSlam, e co-fundadora do Sarau Nosotras, evento de literatura feito 100% por mulheres somente para mulheres.

@1minuteslam @fabulario.collage

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