SOBRE A TERRA DO POEMA | ANA ESTAREGUI


tradução: Sergio Ernesto Ríos

 

1. 

há alguma instabilidade
em todas as coisas
até que se pronuncie o nome
em voz alta e com o corpo inteiro
escrito: isto
em qualquer língua
se pode conjurar a fruta
agora isto está aberto
podemos fixar por instantes
a sombra, antes vaga, de todas as árvores
a casa e até os espelhos
podemos
levar a cabo o sonho
à superfície fina dos acontecimentos
agora podemos tocar
na pele das coisas
sem queimar os dedos
tudo é perscrutável
exceto os barcos
que já estavam lá desde o começo


2.

levar o copo à boca
sempre na mesma inclinação
e com a mesma força
aplicada ao bíceps
levantar da cama
sempre pela lateral
girar o corpo noventa graus
primeiro o pé esquerdo no chão
depois o outro
as mãos apoiadas sobre o colchão
então flexionar os joelhos
e impulsionar de leve
até que tudo esteja de pé
erguer os braços pro alto
alcançar a máxima estatura
que o corpo admitir
se nada falhar
caminhar até a cozinha
ferver a água
soprar o chá algumas vezes
antes de beber
continuar, continuar


3.
não há nada a dizer
aos que cometem pequenos furtos
roubando lenços ou termômetros
não há o que dizer aos domingos
– e nem nunca
não há nada a dizer quando se está doente
e nem diante de uma plantação de onde não se enxerga o fim
não há o que ser dito pela manhã
nem sobre de um livro de poemas
escrito em polonês
não há o que dizer no elevador
nem na sala de espera do dermatologista
não há o que dizer sob um céu um pouco esverdeado
ou quando morre um búfalo
o peso imenso desabando inteiro
ou no instante imediato em que se despedaça
um vaso de porcelana, nada
pode ser dito aos que perderam as mãos
ou os dentes permanentes
ou àqueles que se prestam
a preencher com concreto os buracos do passeio
a estancar com prata os buracos da cárie
a encobrir até a boca de terra
uma muda que não vingou


4.

você verá as baleias de longe
ninguém pode ver as baleias
de perto porque elas não podem
de verdade ser vistas
as baleias podem apenas ser avistadas
como miragem,
você só verá as baleias de longe
nos poemas marinhos e nas histórias
onde elas e os navios cargueiros
se encostam de leve num baque surdo
com seus cascos imensos
e cheios de musgo


5.

um cavalo pode mudar o curso
de um poema
é preciso não temê-lo
os saltos, os espaços vazios
de como se arranjam entre si
de como, sem atrito, produzem luz
disse
deixe o seu corpo boiar
pra que as letras pairem diante dos olhos
é preciso que o dia nos encubra
com alguma névoa pálida
e a fumaça dos automóveis forme
entre nós e as coisas
uma espécie de anteparo vertical
quase transparente
e nos faça avistar de longe os músculos rijos
de um bando de animais que trotam
por entre os carros.

 

un caballo puede cambiar el curso
de un poema
es necesario no temerle
los saltos, los espacios vacíos
de cómo se acomodan entre sí
de cómo, sin fricción, producen luz
dice
deja tu cuerpo flotar
para que las letras paren frente a los ojos
es necesario que el día nos encubra
con alguna niebla pálida
y el humo de los automóviles forme
entre nosotros y las cosas
una especie de barrera vertical
casi transparente
y nos haga avistar de lejos los músculos tiesos
de una banda de animales que trotan
por entre los carros


6.

o que aconteceria aos poemas
se neles acrescentássemos matéria sólida
se, como nas canções,
onde há som voz cordas de metal
depositássemos
alguma seiva e um pouco de ar?
se lançássemos sobre eles
um punhado de sementes
e então nos sentássemos para esperar
por muito tempo
algum movimento sutil
alguma oscilação inaudível
uma dobra só que fosse
sobre a página um pequeno rumor
de qualquer tipo, capaz de levantar
do chão branco alguma voz
o que aconteceria aos poemas
se pudéssemos esperar um pouco mais

 

¿qué sucedería con los poemas
si les agregáramos materia sólida
si, como en las canciones,
donde hay sonido voz cuerdas de metal
depositáramos
alguna savia y un poco de aire?
si lanzáramos sobre ellos
un puñado de semillas
y entonces nos sentáramos para esperar
por mucho tiempo
algún movimiento sutil
alguna oscilación inaudible
sólo un pliegue que fuera
sobre la página un pequeño rumor
de cualquier tipo, capaz de levantar
del suelo blanco alguna voz
lo que le sucedería a los poemas
si pudiéramos esperar un poco más


 

Ana Estaregui (1987) es poeta graduada en artes visuales y estudiante de maestría en literatura y crítica literaria. Es autora de los libros “Chá de Jasmin” (Editora Patuá, 2014) y “Coração de boi” (Editora 7Letras, 2016) ambos premiados en el ProaC de poesía, siendo el último finalista del Premio Alphonsus de Guimaraens de la Biblioteca Nacional, en 2017. En diciembre de 2018 recibió el Premio de Literatura del Gobierno de Minas Gerais en la categoría de poesía. Actualmente realiza talleres en poesía y arte.
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