SONETOS DO VALE DO CAPÃO | EVANDRO VON SYDOW

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Dona Maria inventou moqueca
de jaca coisa que ninguém mais faz
em todo o vasto Vale do Capão
a sua mãe de noventa e quatro anos
já soletra que o tempo é capaz
de tudo ela que tirou criança
para a luz ensurdecedora da
vida e ela que ainda puxa o terço
em português mestiço e latim terso
ora (direis) moqueca sabe a sal
e moqueca de jaca não existe
Dona Maria é cúmplice do vento
antes não tinha mas agora tem
a tradição é coisa que se inventa


a Dona Helena faz pastel de jaca
com a mesma massa com que faz o pão
amassa os dentes da cansada faca
resgata a culinária do Capão
a Dona Helena mora na passagem
que leva os caminhantes pra Fumaça
adverte esperta à porta essa viagem
é muito longa desconheço raça
de gente que despreze um bom descanso
vem entra aqui demora um pedaço
que já te trago um pastel de jaca
vai ser do frito ou vai ser do assado?
Dois de cada :: e uma cerveja também
fique a Fumaça pra amanhã. Amém.


O sábio Salomão alberga as cores
nas retinas e passa pras paredes
e destas para os céus e para as árvores
Salomão vai pintando as suas sedes.
Salomão reina. O Vale do Capão
é fecundado pelos seus pinceis.
Com a hera exata e com o calango frio
disputa os muros deste vasto Vale
que ao ganhar suas tintas se despedem
de tudo aquilo que os batiza muros
já não fecham espaços :: antes cedem
não escondem tesouros :: compartilham.
Os muros se confundem com as nuvens
a resposta do tempo às ferrugens


Pequeno André é guia do Capão
que conhece como não conhecemos
filigranas da nossa própria mão
do alto dos seus bem vividos dez anos
conhece a mata o rio o cheiro o chão
nos guia por veredas cor de luz
nos guia pelas águas cor de ferro
Pequeno André pequenos pés descalços
trilha os desmundos do Capão seus erros
suas astúcias tanto mais revelam
que o caminho ditado pelos mapas
enfim chegamos e eu me deito aqui
nesta pedra me deito à beira à borda
se eu dormir, deixa; se eu morrer, me acorda


Dona Jaqueira, 120 anos
de serviços prestados ao Capão
pasto de pássaros pouso de micos
que dessedenta com seu verde pão
em seus galhos abrigam-se os amantes
que se comem como aves tagarelas
(olha esta velha árvore, mais bela
que as fadigas e as fomes do Bilac)
Dona Jaqueira, la vecchia signora
a quem apelidamos Mme. Jack
nela subimos com os nossos sonhos
infantis de um dia morar em árvore
e dela descemos desarvorados
mas não reproveis a nossa conduta
temos nas mãos nosso Jaqueira Sutra


Evandro von Sydow, carioca, vascaíno, poeta e professor, com seis livros que vão de Taipa (1994) a Habacuque + 11 (2021). Muito em breve virá outro, de limeriques, baseado no Livro de Perguntas, do Neruda, sempre pela editora Laphroaig, que inventou. Gosta de botequim velho, azulejos, rock progressivo. Ama as cigarras, a Pampi e seu filho Dante.

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