E SEMPRE QUE EU MORRO ME RESSUCITAM | STELA DO PATROCÍNIO

E SEMPRE QUE EU MORRO ME RESSUCITAM | STELA DO PATROCÍNIO

Eu era gases puro, ar, espaço vazio, tempo
eu era ar, espaço vazio, tempo
e gazes puro, assim, ó, espaço vazio, ó
eu não tinha formação
não tinha formatura
não tinha onde fazer cabeça
fazer braço, fazer corpo
fazer orelha, fazer nariz
fazer céu da boca, fazer falatório
fazer músculo, fazer dente
eu não tinha onde fazer nada dessas coisas
fazer cabeça, pensar em alguma coisa
ser útil, inteligente, ser raciocínio
não tinha onde tirar nada disso
eu era espaço vazio puro

Não sou eu que gosto de nascer
Eles é que me botam para nascer todo dia

E sempre que eu morro me ressuscitam

Me encarnam me desencarnam me reencarnam

Me formam em menos de um segundo
Se eu sumir desaparecer eles me procuram onde eu estiver

Pra estar olhando pro gás pras paredes pro teto

Ou pra cabeça deles e pro corpo deles

É dito: pelo chão você não pode ficar
Porque lugar de cabeça é na cabeça
Lugar de corpo é no corpo
Pelas paredes você também não pode
Pelas camas você não vai poder ficar
Pelo espaço vazio você também não vai poder ficar
Porque lugar de cabeça é na cabeça
Lugar de corpo é no corpo

Estou enxergando agora você
Enxergando palácio enxergando o mundo
Enxergando a casa enxergando mesas cadeiras
Enxergando paredes cercando o chão cercando teto
Enxergando teto
Enxergando papelões sobre a parede
Papelões sobre a parede
Mesas e cadeiras sobre o chão

Eu não sei como pode formar uma cabeça
Um olho enxergando, nariz respirando
Boca com dentes
Orelhas ouvindo vozes
Pele, carne ossos
Altura, largura, força
Pra ter força
O que é preciso fazer?
É preciso tomar vitamina

Trechos retirados do livro Reino dos bichos e dos animais é meu nome. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2001. Organização e apresentação de Viviane Mosé; 2ª Edição, 2009.

Stela do Patrocínio nasceu no Rio de Janeiro, em 1941, e morreu em 1997. Viveu por quase 30 anos internada na Colônia Juliano Moreira, onde faleceu. O que hoje conhecemos como seus poemas, são, na realidade, falas suas que foram gravadas e, anos depois, transcritas, organizadas e dispostas em versos pela escritora Viviane Mosé, que as publicou no livro “Reino dos bichos e dos animais é meu nome”, publicado pela Azougue Editorial em 2001. (Reino dos bichos e dos animais é meu nome. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2001. Organização e apresentação de Viviane Mosé; 2ª Edição, 2009)

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