poesia brasileira

Toda mãe tem as duas mãos quebradas, e são para quem nunca as concedeu. Como se fosse inconcebível fado o nome carregado, o nume dado da vila inacabada. Quem te deu que vai ruindo todo nas quebradas um erro infando, as contas de um abrigo perto, teus descontentos descontando? Conta nos anos tua perda estando dia. Te deu a casa em desabrigo, o tempo dava o som do nunca sido: cordas umbilicais, teu nome quando, pra comungar, as coisas desvalando, dia te deu um sono desabrido. Dia te deu...
  • abril 19, 2021
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DEI O QUE TINHA 1. te dou de comer na palma da minha mão. é ancestral o gesto de agachar, se reconhece: me curvo ao chão então, você vem, faminto. não distingue entre o que é comida e quem eu sou. penso domar a fera, as pontas dos meus dedos se vão. não distingo se é dor ou prazer me transformar em seu alimento. voltarei amanhã, você sabe. 2. sequer havia luz, mesmo assim, aprendi a te alimentar primeiro. antes de qualquer verbo ou nome: não havia chamado, ainda...
  • marzo 25, 2021
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tradução: Agustin Arosteguy CORCOVAS fiquei no trem que não passou no verbo que escapou pela pele o céu reduziu os espaços e arreganhei os dentes atrás da burca engoli a chave que carregava no pescoço nenhum pensamento depois do seu sopro montei o bicho no silêncio das corcovas a maldição do muro saltado onde foi que não mastigamos o sal? em que língua choravam seu nome empedrado?   JOROBAS quedé en el tren que no pasó en el verbo que escapó por la piel el cielo redujo los espacios...
  • marzo 10, 2021
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AZUL Há algo triste no azul dos teus olhos, algo perdido e infinito neste azul dos teus olhos, algo de azul no triste dos teus olhos. Há algo de teus olhos neste triste azul, algo perdido no infinito do azul dos teus olhos, algo infinito no azul perdido dos teus olhos. Há algo azul no infinito triste dos teus olhos perdidos. [Repátria, São Paulo, Selo Demônio Negro, 2015] AZUL Hay algo triste en tus ojos azules, algo perdido e infinito en este azul de tus ojos, algo azul en...
  • febrero 8, 2021
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SERRA SEM FIM (este texto é parte de uma sequência que ainda venho escrevendo, em prosa poética. a “serra sem fim” tem como base a cena do vapor pairando sobre o rio das antas, cedo da manhã, na serra gaúcha) a mulher nascida na serra sem fim se levanta os fios do seu cabelo amanhecem úmidos, de terem sido lavados muito tarde ontem. ela sente o assoalho – a planta dos pés da mulher da serra sem fim é sempre áspera. ela vive caminhando descalça no chão de pedra...
  • diciembre 18, 2020
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FONTES DE RENDA Era uma vez uma cidadezinha medieval predestinada por poderosa tempestade que fez do seu rio um canal de navegação natural ao longo de séculos de prosperidade. Um dia, empobrecida pelo lodo que de novo o obstruiu, a Bruges restava ainda a renda como fonte de renda. -x- Renda que vem de “reddere”, re-dar, dar de novo, devolver. -x- Renda e bordado: ao tempo tangivelmente tecido fraternais filiados. Quatro horas de trabalho rendem um mínimo centímetro de renda que assim aufere valor agregado como acontece ao bordado...
  • octubre 22, 2020
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fotografia de Peter Provaznik MA BOHÈME Do olho-músculo amatório, daqui falas, daqui chamas — ao vagido da boceta, bocaberta ar-, arfante ante a tv vulgar, desces, ao sangue sem sacrifício, à jugular ardente da pantera num táxi desces, à jungle brilhante das boates, às florestas de ácido e acrílico desces, .             desces ao dragão de veias entupidas no toalete, à girl de gengiva vermelha, à gente fedendo a dinheiro no saguão flutuante de negócios, à boca de fumo e riso, às coxas que no...
  • octubre 1, 2020
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LA HORA CERO 1. A casa amarela tem dois cães. Na casa amarela havia dois cães. Morreram, os dois, de alguma morte canina. Ou por mão humana. Um após o outro, no espaço de uma semana. Desde então, olhamo-nos todos com ar animal. A pergunta que não cala é quem será agora. O próximo. Se meu cão. Se o seu. Se o do vizinho. Ou se serei eu o próximo a cair. De alguma morte, canina ou humana.   La casa amarilla tiene dos perros. En la casa amarilla...
  • septiembre 28, 2020
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foto de Cristina Barros Barreto NOITE DE QUARENTENA Negra montanha não cede à lua nem às estrelas. Noturno impassível sem céu nenhum e sim o rochedo subindo não sei até onde o seu cume. Quando chegaremos a altura segura que acende a lua e o punhado de estrelas? ÁREA DE RISCO A seta da caneta mais rabisca do que escreve. Crava letra por letra em linhas pontudas e o que parecia ser um verso é reverso fere por amor e medo e tudo em fim acaba ou enfim… com...
  • septiembre 22, 2020
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Traducción por Hermes Vargas GREENWICH A linha entre o ar e as águas. Ou apenas a linha já destituída das conquistas e das torpezas que atravessaram todos os mares. Um horizonte povoado de onde se olha para o alto e depois se desce o rio – e a ilha fica para trás. O Tâmisa preenche as ruas faz uma curva imensa (uma curva grávida e lenta) até os pubs fecharem. Fantasmas de soslaio vêm por aqui almirantes defuntos vias férreas, telescópios tudo sobe a colina. O labirinto resoluto finca...
  • septiembre 10, 2020
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