VERS DE CIRCONSTANCE|PAULO HENRIQUES BRITTO


Vers de circonstance

A estupidez é sua própria recompensa.

   Graças a ela, o mundo faz sentido,

   um só, que é fácil de identificar.

E só o fácil satisfaz a quem não pensa.

Pensar só dá trabalho. E dói. A ignorância

   é o sumo bem dos cidadãos de bem,

   é a verdadeira marca dos eleitos.

Ter sucesso é não ter que saber. Saber cansa,

e o objetivo central de qualquer existência

  só pode ser não se cansar. Olhai

as vacas do campo: não lhes faz falta a ciência,

   pastam em plena bem-aventurança,

sem que nenhuma antevisão do matadouro

   perturbe a santa paz da ruminança.


Paulo Henriques Britto é escritor, tradutor e professor de tradução, criação literária e literatura no Departamento de Letras da PUC-Rio, nos níveis de graduação e pós-graduação. Atualmente, pesquisa tradução de poesia e poesia brasileira contemporânea. É autor de dez livros — sete de poesia, um de contos e três de ensaios — e diversos artigos publicados em revistas acadêmicas. Já traduziu cerca de 120 livros, em sua maioria obras de ficção, mas também textos ensaísticos e obras de poetas como Byron, Wallace Stevens e Elizabeth Bishop.

1 Comment
  1. Paulo Henriques Britto – Vers de circonstance – Singularidade

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