VIVA INVOQUE VISLUMBRE INVENTE | LEONARDO FRÓES

Leonardo Fróes

fotografia de Cassiano Fróes


O OBSERVADOR OBSERVADO

Quando eu me largo, porque achei
no animal que observo atentamente
um objeto mais interessante de estudo
do que eu e minhas mazelas ou
imoderadas alegrias;

e largando de lado, no processo,
todo e qualquer vestígio de quem sou,
lembranças, compromissos ou datas
ou dores que ainda ficam doendo;

quando, hirto, parado, concentrado,
para não assustá-lo, com o animal me confundo,
já sem saber a qual dos dois
pertence a consciência de mim —

— qualquer coisa maior se estabelece
nesta ausência de distinção entre nós:
a glória, a beleza, o alívio,
coesão impessoal da matéria, a eternidade.


A LAGOA DOS OLHARES

No fundo, ninguém conhece
ninguém. A não ser por alto.
Mas na hora dos encontros,
quando os litígios se afogam
na lagoa dos olhares,
quando surge entre dois a igualdade
de um ponto de vista ao ponto
sem ônus de animosidade,

nos momentos assim, que até nos ônibus
lotados podem acontecer de repente,
se aos solavancos ali olhos se cruzam
no mais perfeito entendimento possível,

nos momentos amenos em que as pessoas
(uma no mar da outra mergulhadas
por atração ou forte simpatia)
deixam de perceber que se ignoram,
isso é tudo o que podem no tocante
ao que existe para conhecer do outro lado.

Quando nos vemos, de nós embevecidos
na serena permuta de um instante
em que a emoção de viver nos aglutina,
a presença da espécie rarefaz-se, nosso amor pacifica
qualquer onda de susto ou qualquer guerra.

Depois, contudo, cada qual volta ao seu casulo,
solucionando-se, ou não, na solidão.
É bom se ver, distrai se entreolhar
e é ótimo se conhecer, assim por alto.
Ninguém porém entrega a senha do mistério
que é humano ser um só na multidão.


PASTOREANDO UM BRUXO URBANIZADO

Interpele o mato a brotação a seiva
que borda obras custosas de artesão
sob os elos amenos do jardim indague
com que paciente amor foram tecidos
os fios luminosos da manhã
cuja cortina ondeada se biparte nos morros abjure
toda forma suspeita urbanizada
ou transmitida
por imperfeitas formas literárias
de assimilar o mundo espie
essa nudez de coisas que se entregam
à embriaguez da própria criação o lento
crescimento raízes
matizes o intento
imprevisível do capim a ilusão preguiçosa
de nuvens que desandam
e de repente chovem sobre a roça
um frio leque de água clara ouça
essa mensagem muda que o minuto
sopra: viva invoque vislumbre invente
mas não pergunte nada.


A PANDEMÔNIA

Pois é, saí fininho por aí como um rato
amedrontado mascarado se esgueira
pelas sobras do mundo: terra plana.
Nem monturos de lixo nem bagaços de farra
nem destroços de guerra se avistavam
nos espaços desertos da cidade.
Andei sem sombra, pois nada a mim se contrapunha,
carros não corriam como baratas tontas
(pilotados pelo estrondoso furor dos motoristas)
e as motos temerárias que antes saracoteavam nas pistas
como corcéis medievais cumprindo seus belicosos papéis
não tinham na desolação dos cenários
mais vez nem voz. Nenhum de nós, a não ser eu, hélas,
que era minha própria e imprópria testemunha,
se aventurava nesse dia
a ver que a máquina do mundo enguiçou.
Alguma coisa estava acontecendo…
Os soberbos edifícios calados
enfileiravam-se inertes tristemente.
As torres industriais não vomitavam
a fumaceira encardida dos seus venenos.
À falta de fiéis, ninguém vendia salvação nas esquinas.
Fecharam-se os bordéis, os bares e os bazares, os bancos.
Ninguém se atropelava, mas quem se arriscaria a namorar,
se a contaminação da pandemônia estava à solta e invisível?
Políticos artríticos não se dispunham
(talvez enfim de si envergonhados)
a sacar na sacada os microfones blindados
que filtram seus discursos pomposos de ursos de circo treinados
para enganar multidões de anestesiados otários.
Pude olhar para o ar, que estava limpo
e onde os passarinhos de sempre dedilhavam
seus trinados alegres pespontados
nos sadios arabescos do voo em liberdade.
Pude olhar para as nuvens, que aviões não rasgavam,
desenhando no fundo do infinito, tão maior do que tudo,
suas formas de sonhos que se consolidam e esgarçam.
Alguma coisa estava acontecendo,
porque um fio de luz, tão de manhã
no coração das trevas, iluminou minha presença,
bateu asas nos olhos e sumiu.


Poeta y traductor, Leonardo Fróes (1941–) es autor de libros como Sibilitz (1981), Chinês com sono (2005) y Trilha (2015), este último una antología que organizó a partir de toda su producción poética. Tradujo, entre otros, a Faulkner, Goethe, Swift y Le Clézio. Hace más de 40 años, se mudó a una hacienda en Secretário, ciudad a unos 100 kilómetros de Río de Janeiro.


Leave a Comment

Categorías